terça-feira, 9 de junho de 2015

Segunda-feira
  Havia uma colher sobre a mesa. Com a ponta de apenas dois dedos eu a toque, e senti que estava fria, assim como o clima lá fora. Já fazia um bom tempo que se mantia assim; às vezes chovia a noite, chuva leve, fininha, do tipo que muitos nunca chamariam de chuva. Não parecia, mas era.
  O silêncio daqueles dias devorava a minha misera alma, que já não sabia mais se ainda iria ter alguma redenção, se ainda existiria alguma epifania, salvação, fazer ou não fazer não me trazia diferença alguma, como se todo, ou qualquer sentido de existir tivesse morrido e agora tinha deixado apenas um grande buraco vazio dentro de mim e agora era apenas uma coisa morta-viva, feito um zumbi, sem crença, destino, plano, sentimento. Um grande e frio buraco vazio, sem nada, sem nada. Era assim que eu sempre me sentia durante os meses de fevereiro, setembro e dezembro. Em fevereiro eu já sabia que depois de janeiro nada mais poderia mudar, em setembro; alguns poucos e velhos fantasmas vinham me assombrar me remetendo ao mais triste capitulo do meu passado, e em dezembro, eu lutava para acreditar que depois do ano novo algumas coisas boas que já se foram podiam voltar e que outras ainda desconhecidas poderiam chegar. Mas tudo era tão frio assim como aquela colher, como todo aquele clima lá fora, e por isso tentava dar algum motivo a minha vida.
  Às vezes se chega a um ponto em que não se acredita em mais nada.
  Que acreditar ou não, não traz nenhuma diferença, e nem esboça algum sentido.
  Ali, naquela imensa sala de estar, de frente para aquele pequeno móvel de madeira visivelmente velha, mas bem conservada, na qual se encontrava um pequeno livro de contos com uma capa verde e grossa e um abajur herdado de uma tia da família; eu estava com a mente vaga, solta, vazia, e apenas me virava por completo para uma inútil colher de prata portuguesa, também herdada de algum membro mais velho da família — somente ela, a colher, tinha a minha atenção naquele momento, somente ela e nada mais nesse mundo, nada mais fazia sentido naquele momento, e eu a sentia extremamente e intensamente em mim, algo indecifrável e incompreensível para alguns (ou muitos), decifrei todos os seus enigmas e decorei todos os possíveis detalhes daquela peça —, naquele momento, o silêncio nos exaltava, e eu contemplei-o assim como mais uma parte daquele instante.
  Pela primeira vez na minha vida eu não consegui pensar em nada, minha mente estava tão leve, tão leve, que eu nem podia pensar em nada mesmo, e a verdade, é que eu também nem queria.
  Mas como tudo o que é lindo, bonito e bom, sempre há algo para interromper, estragar, quebrar o clima, destruir o momento, como se estraga o manuscrito do mais perfeito dos textos escritos do mundo e do universo na qual se derrama café: Não há concerto. Por mais que se escreva outra vez, por mais que o escritor tenha a história em mente e a refaça não será mais a mesma de antes, não será como antes. E agora, o mais belo dos meus poucos e raros momentos de paz havia sido quebrado, por alguém que estava batendo e tocando a campainha da minha casa às sete da manhã.
  Senti vontade de abrir a porta e gritar com quem quer que fosse que estivesse lá fora, eu estava aborrecido, com raiva daquela pessoa, mas tentei me conter, por isso olhei para os copos e pratos sujos da noite passada que estavam espalhados pelo chão as sala de estar. Fechei os olhos, respirei, caminhei até a porta sem nem olhar quem era, abri.



DOIS
  Quando eu abri a porta, e finalmente pode reparar na ilustre pessoa que acabara de interromper o meu belo momento; deparei-me com um desconhecido. E quando digo desconhecido é porque realmente não conhecia aquele sujeito.
  Era um homem um pouco mais velho do que eu, deveria ter um pouco mais de trinta anos, um trinta e poucos anos, tinha uma boa aparência, e o seu corpo muito bem cuidado — se notava o tamanho de suas vaidades sem nem menos conhecê-lo —, dava-lhe a aparência de um belo rapazote.
  Em apenas poucos e mínimos segundos pode notar seus olhos que tinham a mesma cor das pérolas mais negras dos oceanos mais profundos, cabelos cacheados, angelicalmente loiros, corpo forte, e barba meio loira, sua pele; tão branca que apenas com um aperto ficaria uma marca vermelha em seu braço.
  O tal sujeito ficou ali, parado na minha porta em quanto eu o examinava como uma espécie rara, hóstia, desconhecida — e era —, do tipo que se prende os olhos e não se consegue largar mais, por mais que queria é impossível.
  Não disse nada.
  Eu também não quis dizer, mas sabia que ia dizer algo.
  Apenas esperei.
  — Tiago? — perguntou com os lábios meio trêmulos.
  — Sim, sou eu! Já nos conhecemos de algum lugar?
  — Sim, na verdade há muito tempo há trás.
  — De onde mesmo? Não estou lembrado de ter lhe conhecido — perguntei.
  — Da escola, do colégio…
  — Acho que não dou aula para os seus filhos, ou dou?
  — Não, eu não tenho filhos, para sermos direto nós nos conhecemos há uns 15 anos atrás quando estudávamos na mesma escola, eu era capitão do time de futebol e você era editor do jornal escolar e presidente do grêmio estudantil, e tínhamos muitos amigos em comum.
  — Há! Neto?
  — Sim!
  — Mil desculpas. Você está muito diferente, e tanto tempo já se passou… Intriga-me muito só de saber que você ainda se lembra de mim, vamos entrar, podemos conversar um pouco melhor, essa semana eu não irei trabalhar e por isso tenho todo o tempo do mundo para poder receber visitas e conversar infinitamente.
  Ao entrar, fechei a porta, ele ficou ali, no meio da sala, olhando para cima e para todos os lados, assim como uma criança que pela primeira vez em toda a sua tão pequena vida colocou os pés em um parque de diversões ou um circo cheio de palhaços: tudo é novo, tudo é lindo, tudo é belo, inacessível ao seu mundo pequeno, fascinante, e o coração pede para que tudo isso nunca tenha fim, mas infelizmente tem.
  Com toda certeza você já deve ter se sentido assim.
  Era assim que o homem de barba rala e amarela olhava a minha sala com o seu par de pérolas negras nos buracos dos olhos, era exatamente assim que ele estava se sentindo ali na minha sala.
  Eu podia notar todas as suas expressões, por isso convidei-o para se sentar, queria saber mais sobre ele, como ele me encontrará, como ele vivia após tantos anos e o que ele ainda se lembrava, queria conhecer ele, saber mais sobre aquele homem de barba rala e amarela e quem sabe até mais sobre mim mesmo, provavelmente eu roubaria alguma boa história dele.
  — Bem, o que devo essa fascinante visita? — perguntei ao me sentar de frente para ele no outro sofá da sala.
  — Na verdade eu não vim aqui por nenhum motivo de visita, queira me desculpar. Vi no jornal que estava precisando de um jardineiro e me interessei pela vaga, eu estou sem emprego e pensei que seria algo bom para me ocupar, e também o Gabriel me disse que o dono do jardim era você, e por isso pensei que com certo jeito poderia conseguir a vaga.
  — Há sim! Eu estava, quer dizer ainda estou precisando de um jardineiro, você é paisagista, urbanista, arquiteto ou algo assim? Eu adoro flores, mas ultimamente ando meio sem tempo para cuidar das minhas plantas, por isso quero alguém bem dedicado e de confiança, meu jardim é meu tesouro verdade. Mas deixe essa história de lado, já que estamos aqui quero saber de você, quero saber da sua vida nesses últimos anos — dei um sorriso, eu estava tão empolgado que podia passar o dia todo ali na sala, o ouvindo falar do que quer que fosse, sei que eu ouviria.
  — Depois da morte do meu avô     a minha vida não andou tão interessante assim, fala de você primeiro, ouvi dizer muitas coisas por aí… — esticou o braço e colocou a concha da sua grande mão em um dos meus joelhos que sentiu aquele peso que parecia uma pedra.
  — Então já que você prefere assim… Vamos lá! — sorri — Bom, depois que você se casou e foi embora eu continuei por lá mesmo, naquele lugarzinho sem sal, estudando e estudando muito mesmo, anos depois me mudei para a cidade grande, me formei em letras, lancei meu primeiro livro em entes mesmo de me formar, depois lacei mais dois, e me mudei para Portugal, viajei muito, e só um tempo depois voltei ao Brasil, hoje eu dou aulas de redação e literatura, escrevo contos e crônicas para alguns jornais, e é isso! E o que você fez e faz da vida?
  Nesse momento ele voltou a contemplar a minha grande sala de estar, de lado a lado, depois abaixou a cabeça, colocou as mãos contra as pernas, e começou a falar com a voz bem baixinha:
  — Só de ver a sal casa vejo que a vida foi muito boa com você… Eu me mudei para outra cidade como você já sabe, fui traído, meu casamento acabou eu não entrei em nenhuma faculdade, depois de anos de trabalho sofrido, comprei uma casinha em um bairro pobre da cidade, é simples, mas é minha não consegui ser engenheiro, nem consegui bons empregos, por isso me tornei jardineiro, sempre gostei de plantas!
  Senti no ar que ele estava envergonhado, mas como assim? Vergonha de sua vida? Seu passado? Sua história?
  Dois grandes mandamentos para vida:
  1- Um grande homem não se esquece e nem apaga os rastos que fez para chegar aonde chegou, 2- a chave do sucesso é saber quem você foi para ser quem você é hoje.
  Eu estava com alguém que tinha vergonha do seu passado, as sua verdadeira história, tanto no que viveu e no que ainda vive, ele tinha vergonha da vida que tinha, e jogando sobre a mesa as suas miseras conquistas desapareciam feito pó ao vento quando comparadas com as minhas histórias de sucesso, ele parecia querer chorar, eu não sei o que faria se vice o homem de barba rala e amarela chorando na minha frente.
  Ele apenas se tornou um simples jardineiro por necessidade e intenção de sobreviver.
  Eu sabia que algumas coisas que eu tinha ele não podia ter e outras que ele era eu não poderia ser.
  A vida prega peças em nós!
  Queríamos o que não tínhamos isso não podíamos negar a ninguém mesmo, nem a nós mesmos.
   — Meu querido, eu consegui muitas coisas durante toda a minha vida, mas tudo foi apenas por mérito meu e de ninguém mais, ninguém jamais me ajudou a pular algum degrau dessa escada e por isso muitas vezes cai, sofri muito para chegar aonde cheguei hoje, e qualquer um podia estar aqui no meu lugar e eu poderia estar em qualquer outro lugar se não tivesse lutado, a vida de dá tudo aquilo que você busca nada vem de bandeja na sua mesa — sorri.
  — Você sempre achou tudo tão fácil…
  Algumas poucas e quase invisíveis lagrimas se formaram nos cantinhos dos seus grandes olhos negros que agora se fixavam em mim, uma dor muito inexplicável morava em seu olhar, ago que nem mesmo eu podia decifrar.
   Achei triste tudo aquilo, e ao mesmo tempo muito lindo, por depois de tantos anos reencontrar quem mais que nunca me recordava o passado, e triste, por ver que nem todas as pessoas em que conheci alcançaram os seus ideais.
  Senti uma imensa vontade de poder abraçá-lo, senti uma grande vontade de chorar, de gritar, abrir a porta e sair correndo dali, deixar aquele meio-passado para trás outra vez, sair correndo do meu passado, do que eu era, fui, mas em vez disso eu apenas olhei para ele, bati a mão em sua cocha musculosa, e com um sorrisinho meio que falso no rosto disse ‘’calma, vai ficar tudo bem’’. Assim como qualquer um diria para alguém quando as coisas vão de mal a pior e a única chance que há é de mentir para si mesmo, ou para os outros, como eu fiz, dizendo que vai ficar tudo bem, mesmo no momento que se sabe que não vai ficar tudo bem, os outros sabem que não, você também sabe que não, mas mentem, e você acredita, acredita porque não tem mais nada a perder e isso não trás nada de bom ou diferença na sua vida, acredita nem sabe por que, mas acredita assim mesmo e continua acreditando. Nessa altura dos acontecimentos é pouco provável que algo bom ainda possa vir acontecer. Por isso você mente para acreditar que algo diferente ainda possa existir.
  A pior coisa é não sentir mais a esperança no ar que respira.
  Olhe profundamente naquele par de olhos negros e voltei a falar:
  — Na verdade eu nunca achei nada fácil demais ou difícil demais nessa vida ao ponto de ser impossível, tudo é uma questão de força de vontade, quem acredita sempre pode! — dei outro sorrisinho amarelo.
  — Há muito tempo eu não vejo alguém tão otimista assim, de onde eu venho às pessoas não assim.
  — Que pena, eles não sabem o que estão perdendo! — brinquei.
  — Acho que eu estou te ocupando demais…
  — Jamais, quase não recebo visitas e quando recebo cultivo o costume de não deixá-las irem embora tão cedo, aceita tomar chá comigo? Eu não aceito nenhum não como resposta. Sim?
  Levantei-me, fui até a cozinha e deixei algumas ervas fervendo e voltei até a sala.
  Ao voltar, desta vez sentei-me na poltrona que me permitia olhar de frente para o rosto de quem quer que fosse que estivesse sentada no outro sofá da sala de estar, assim eu podia analisar e observar todas as emoções e expressões da outra pessoa.
  Não consegui evitar e nem deixar de notar que assim como eu ele nunca tinha deixado o habito de comer e roer as unhas — pequei-o com os dedos na boca.
  — Nunca pensei que você se tornaria professor — ele passou os dedos úmidos da calça disfarçando, me olho como quem tem muito interesse na conversa e em uma possível resposta.
  — Nem eu — sorri.
  — Então porque se tornou um?
  — Às vezes as pessoas cansam de ler livros, de comprá-los, de ver histórias no fim dos jornais, de pegarem filas por autógrafos, esperarem anos pelo lançamento de um livro, é assim que os escritores vão sumindo do mapa, e por esse mesmo motivo dou aulas: para ter alguém em que possa contar as minhas histórias, mas mesmo assim não me sinto completo, ainda me sinto só, eu não posso contar muito para eles… Ah! Mas como eu queria!
  — E você gosta de dar aulas?
  — Gosto. As crianças adoram me escutar, os adolescentes também, mas estes um pouco menos, e isso me faz bem, me sinto menos só quando estou com elas.
  Olhei para o teto como se pudesse ver a cena acontecendo ali.
  — Você é casado? Tem filhos?
  — Não, eu nunca me casei, e também não posso ter filhos… Sou romântico e apegado demais para me casar, sabe? Gosto de quem não gosta de mim…
  Respirei bem fundo.
  — Sei.
  — Você se casou outra vez?
  — Não. Casar-me foi o fato que deu uma volta e meia em toda aminha história, casar com 17 anos de idade não garante um futuro tão bom assim, olha só onde eu estou hoje? — riu junto comigo.
  Quando ele se casou ele tinha apenas 17 anos de idade mesmo, estava quase fazendo dezoito, ele ainda estudava, fazia dois anos que nos conhecíamos… Na verdade não foi um casamento mesmo, foi quase uma pena, pois ele tirou a virgindade da moça, que até hoje eu não sei o nome e nem me interessa saber. O fato é que a família dela obrigou eles juntarem seus trapos e escovas de dente, do dia pra noite, sem precedente, aviso ou planejamento, um dia eram apenas ficantes, no outro dia; alianças aos dedos. Não teve festa. Não foi na igreja. Ninguém soube. Quem soube só soube depois do acontecido, quando eles já eram um do outro, não porque queriam, mas sim porque foram obrigados a pertencerem a uma união arranjada e forçada.
  Tristes são esses amores que não são amores.
  Casamentos de aparências.
  Falcas relações.
  — Acho que quando não dá certo uma vez é pouco provável que vai dar certo em outra não é mesmo? — abaixou a cabeça, fitando o carpete turco.
  Quando se encontra alguém que não sente mais a luz da esperança se vê que se tem sorte por ainda poder acreditar e sentir-se iludido por uma porção de bobagens que você julga reais.
  — Você não tem culpa do que aconteceu, só tinha que acontecer e aconteceu, conseqüências apenas, talvez isso serviu para te mudar, dar uma nova chance, te mostrar um novo caminho… Com 17 anos ninguém pensa em nada mesmo, não é?
  — Eu perdi meu casamento, minha casa, minha família, eu virei um jardineiro, não tenho nada, e horas, cadê esse caminho? Você tem tudo, não Sade como é que eu estou me sentindo, não sabe como é ter uma vida como a minha — ficou vermelho de raiva, cutuquei a sua ferida mais profunda.
  Milhares de coisas mergulharam na minha mente, era como se os antigos demônios voltassem a me assombrar, como se todas as dores e feridas do passado voltassem a me atormentar e outra vez reinar sobre mim. Senti-se como se outra vez tivesse quatorze ano de idade, como se ainda fosse aquele menino feio, magro, com tantos medos, tantos sonhos e segredos, problemas e erros. Senti como se outra vez não tivesse nada, que mais uma vez estivesse bem mais só que atualmente, perdido, indefeso, como se outra vez estivesse no ponto zero em que um dia parti e me vi na escola, sentindo-me humilhado outra vez, pisado por pessoas que naquele tempo, assim como Neto, estavam bem à cima de mim, pessoas que hoje formam um clube de bêbados, prostitutas, ladrões, presidiários, drogados e fracassados — a história se inverteu, o baixo subiu, o alto foi para a margura.      
  Senti-me sem chão.
  E há muito tempo eu não me sentia assim.
  Lembrei de mim mesmo quando perdi tudo o que tinha, eu era apenas um garoto de dez anos, que não queria mais chorar, queria apenas acordar e ver que tudo aquilo não estava lá, que tudo aquilo não era real, que só era um dia ruim, que a minha felicidade não teve um fim, mas não, não era um sonho, era real. E mais uma vez eu estava me sentindo assim. Mas desta vez por outra pessoa, senti dores alheias, e em antes disso eu já me sentia assim: só. Consegui tudo o que queria, mas mesmo assim eu me sentia sem nada. Realmente eu sabia como ele se sentia. Por isso olhei novamente para o seu rosto, cuja pele era linda como de uma pêra madura, com manchinhas marrons, caramelo, dei a pior resposta que eu podia dar:
  — Infelizmente eu não sei — mas sabia, por isso menti.
  Ele me encarou de lado e abaixou a guarda como quem vê que não há mais solução a se recorrer ao bom, longo e velho silêncio, esse mesmo que perdura nos fins dos assuntos e das histórias, tem o formato de um ponto final escrito em Times New Roman, Arial ou Corrier New, em negrito em fonte 156 no preto mais preto de todos os pretos, também tem a imagem de uma bandeira branca em uma vara de bambu suja de terra e sangue, que diz por si só ‘’acabou, terminou’’.
  Cansei de me sentir mal. Eu estava tentando acalmar uma pessoa, mas era eu que estava perdendo a paz, era eu que agora queria, implorava, pedia por um pouco só de sossego, eu estava mentindo, não que eu não mentisse, mas daquele jeito não, era feio demais, era sujo, era ruim, triste, e mais que tudo eu sabia que tudo aquilo ficaria em mim, eu carregaria comigo para a cama durante a noite, e talvez perdesse o sono, e pobre dessa minha alma, que agora tinha mais alguns pecados nas estantes e prateleiras de sua sala de estar, mais uns para carregar, pregar e amontoar em meu álbum de figurinhas sujas e desonestas, fazer parte dos meus montes de erros maiores que o Everest que corroem e vão matando aos poucos, tirando meu sono, meus poucos sorrisos que restam, as poucas migalhas do meu lado bom que quase não existe mais dentro de mim.
  Mentir mata.
  Mata aos poucos, mas mata. E isso ninguém pode negar. (Nem a si mesmo)
  Mais uma vez nos olhamos e ele disse:
  — Desculpe-me por te fazer se sentir assim — ao dizer eu podia ver as dores estampadas em seus olhos negros.
  Mais que de pressa eu deu-lhe uma resposta:
  — Que isso… Diga o que você quiser… Eu sou todo ouvidos! — animei-o.
  O cheiro do chá era intenso e por isso fui até a cozinha buscar duas xícaras e alguns biscoitos.
  Ao voltar, sentei-me com cautela, coloquei a pequena bandeja de prata portuguesa com cuidado sobre a mesinha de centro feita de mogno bem trabalhado. Voltei a falar:
  — Acho que a sua visita mudou o meu dia! — tomei um leve gole de chá que estava muito quente.
  — Desculpe-me por vir assim sem lhe avisar…
  — Amigos são sempre bem vindos em minha casa a qualquer hora, venha quando quiser e quantas vezes sentir vontade, a casa também é sua meu querido! — sorri.
  — Você sabe que nunca fomos amigos… — recordou-me.
  — É? Pensei que fossemos… Mas acho que ainda temos tempo suficiente, e ainda podemos ser não é mesmo? — adverti.
  — Acho um pouco impossível, hoje nós somos de mundos muito diferentes…
  — Eu não separo e nem divido as pessoas em minha vida — avisei.
  Observei que ele ainda comia do mesmo jeito e mastigava da mesma forma.
  Sou muito detalhista.
  Lembro do que ninguém lembraria, vejo o que ninguém viria.
  Costumo sempre me lembrar de coisas assim. Eu nunca me esqueço dessas coisas meio que ‘’bobas’’, para alguns, claro.
  Quando ele comeu o ultimo biscoito de nata molhando-o no chá quente que cheirava muito bem, olhou para os lados, ficou calado, se levantou e disse que devia ir embora.
  Feito muriçoca: como e vai embora!
  Não pedi parar ficar.
  Nem disse que era cedo demais.
  Caminhamos até a porta da sala, parecia tão longo aquele caminho…
  Ele me deu um abraço e se despediu de mim.
  Fiz com que me prometesse que iria voltar a me visitar outras vezes, disse-me que quando tivesse tempo iria sim. Mas eu sabia que não voltaria ali outra vez. Mentiu.
  Não senti problemas nisso, pois já tinha mentido tanto para ele naquele dia…
  Quando fui fechar a porta notei que tinha me esquecido de alguma coisa, só lembre quando vi pela janela o meu pé de jasmim, gritei bem alto:
  — Neto, você pode vir amanhã? — perguntei.
  — Para quê? — quis saber.
  — Para trabalhar é claro, para quê mais seria? Quero que você cuide do meu tesouro verde, e te espero amanhã cedo. Não falte.
  Em antes mesmo de ele pensar em me responder eu me virei e fechei a porta.
  Foi à única chance de me redimir e curar o meu dia torto.

TRÊS
   Terça-feira
  Eu acordei com um leve barulho de pedrinhas batendo na minha janela.
  Acordei meio tonto, esfreguei os olhos e caminhei até a janela.
  Vi Neto de pé olhando para cima e atirando pedrinhas de cascalho na minha janela, o clima estava meio que um pouco ou até mesmo muito crepúsculo, não era dia e nem dói. Nem sei o que era só sei que era clima, ou apenas queria ser isso.
  O sol já ia nascer, deve que naquele dia ele se atrasou ou o despertador não tocou ou algo assim, quem sabe ele não estava namorando a lua em? Tudo é possível… Acredito!
  Era muito cedo, acho.
  Era um pouco mais de cindo horas e nem sei se era isso mesmo, será que era? Havia muitas gotinhas de sereno — orvalhos — por toda a parte que pudesse ver essas, eram como lâmpadas prateadas: refletindo tudo, não escondendo nada. Vesti outra roupa, me enrolei em uma coberta marrom de algodão, cuja sua estampa era um lindo mosaico com muitos e vários tons de um mesma cor. Desci as escadas, atravessei a sala e abri a porta da sala, e ele veio caminhando até mim, vestia uma calça jeans bem grossa e uma camisa de mangas compridas em um tom bege-caramelo, já molhada pelo seu suor — ele sempre suou muito —, estava sorrindo, assim como quem sente o gozo de que o dia vai poder acabar bem ao sol se por no fim da tarde, ao chegar mais perto me cumprimentou, pediu desculpas por me acordar tão cedo, disse-lhe que não me importava com aquilo, revelou que quase não dormiu durante a noite, já não via mais à hora de poder começar a trabalhar, estava muito ansioso e feliz, e eu podia ver no brilho dos teus olhos pretos.
  Eu e qualquer outra pessoa notaríamos toda aquela animação estampada de forma bem clara em seu rosto com pele de pêra madura.
  Chamei-o para entrar.
  Ele queria entrar sem os sapatos que estavam bem sujos de lama, mas lhe disse que me sentiria ofendido se ele fizesse isso.
  Desta vez sentamos em umas poltronas que ficavam perto das estantes de livros. Não pode deixar de notar que assim como na primeira vez ele ainda olhava para todos os lados se mostrando cada vez mais deslumbrado, fascinado com tudo aquilo, um mundo que não era dele, ainda, sou seria em algum dia?
  Minuciosamente ele via os detalhes das coisas a sua volta, detalhes que nem eu dava o capricho de notá-los, mas talvez nem quisesse, e era isso o que eu mais gostava nele: a simplicidade. A forma com que ele via o mundo a sua volta e o pertencia de uma maneira muito pouco culta.
  Diferente de mim.
  Seu rosto e seu olhar se voltaram contra mim.
  Senti que queria e ia dizer algo, por isso aguardei.
  — Você gosta muito de ler mesmo — observou.
  — Sim, e por isso eu sou escritor, mas gosto mais de inventar e contra histórias do que de lê-las — sorrimos.
  — Já escreveu muito livros?
  — Acho que uns nove, mas já faz tempo que não escrevo nada sabe? Ando meio sem idéia por esses últimos anos… — passei a mão pela testa.
  — E eu sempre pensei que a sua fonte de inspiração nunca morreria.
  — E eu também pensava isso, mas quem sabe um dia ela volta a jorrar? — brinquei.
  — É.
  Calou-se, mas vi que ficou triste, será que se lembrou de algo? Aguarde! O passado outra vez bate em nossas portas…
  — O que aconteceu com a sua família? Sempre há noticias de você e até alguns amigos nos jornais, mas nunca se fala do seu pai, mãe, irmãos…
  Percebi que ele estava muito curioso para saber como a minha vida vinha por todos esses anos, a história se inverteu e agora era ele que queria saber algo e não eu, ele tinha uma louca vontade nos olhos de saber de mim, da minha vida e quem era na verdade grande o famoso escritor Pedro Tiago Amos, ele queria muito saber se o que diziam era verdade, se eu tinha alguma coisa oculta, e mais que tudo, os motivos da minha volta a minha terra, porque voltou? Ele se perguntava. Eu sei que sim.
  Fechei os olhos para não voltar ao passado, eu não queria estar ali, não queria ter que responder aquela pergunta, mas horas, eu tinha o direito de não responder, quem iria me obrigar? Devia fugir? Responder ou não?
  Confusão, tumulto, bagunça.
  Tudo isso estava dentro da minha cabeça, e agora como fugir? E para onde?
   Lugar algum era a resposta, eu devia estar ali e encarar aquilo da forma que fosse sem me acovardar e nem chorar, apenas encarar assim como enfrente tantas outras coisas na minha vida.
  Quem deve não corre.
  E eu devia?
  Correria? Sim, mas quando chegasse a hora!
  Fechei os olhos para não voltar outra vez ao passado, e eu não queria, não queria mesmo, eu não queria mesmo ter que estar ali naquele lugar preso com aquela pergunta, não queria ter que responder, e agora? O que fazer?
  Queria negar qualquer suspeita que haja sobre mim naquele lugar e naquele instante.
  Mas não podia fazer isso.
  Mentir, negar, usar, mais uma vez…
  Mas não. Ele não tinha culpa da minha vida ter sido uma desgraça, um barco naufragado, um bote com o fundo furado no cais, ele só queria saber de mim, e era eu que estava complicando tudo, mudando o que era fácil para a visão alheia, e para a minha também, mas eu não queria que fosse assim, mas por quê? Havia motivo para se fazer isso? Não. Não mesmo.
  Não resisti.
  Não menti.
  Respondi com a verdade que dia ser dita ali mesmo, sem rodeios:
  — Família é uma das coisas que eu matei e deixei junto com o meu passado, lá no fundo do meu cemitério de ontens. Depois que vi que eu já podia andar por mim mesmo, que já era a minha hora de ter que ir a busca de algo só para mim, vi que eu não precisava mais ser quem eles queriam que eu fosse, que eu já podia ser livre, e que a verdadeira chave da porta estava comigo e agora eu podia tirá-la da gaveta e abrir-me, soltar-me, libertar-me de tudo aquilo. Eu já não precisava mais daqueles poucos e raros favores do meu pai e da milagrosa dor e piedade da minha mãe. Nunca entendi porque cuidaram de mim, pois nunca gostaram de mim, quando eu resolvi ir embora disse que voltaria nas férias e que ligaria sempre que pudesse e, claro, não voltei nem liguei.
  Respirei fundo (alivio) e voltei a falar:
  — Anos depois comecei a fazer sucesso como escritor, apareci na TV e em jornais, passei a ser eu mesmo, e não estar preso a nada. Mudei-me para Lisboa, depois para a França, Alemanha, Inglaterra, visitei muitos países e lugares, até que voltei para o Brasil, nunca mais falei com eles e nem eles comigo, sinal de que nunca sem importaram comigo de verdade.
  — Depois que o meu avô morreu, minha avó morreu de câncer, minha mãe sofreu um acidente de carro, logo depois briguei com a minha irmã e dês de então nunca mais nos falamos e nem nos vimos.
  — Sinto muito…
  Coloquei a mão em seu ombro como se eu fosse lhe passar alguma sensação de segurança — porque sempre fazemos e pensamos nisso nas horas ruins?
  — Você ainda têm avós? — me olhou de cima em baixo.
  — Não, perdi meu avô recentemente, e minha avó morreu quando eu tinha apenas dez anos, eu vivia com eles… Ela foi uma das poucas pessoas que eu posso dizer que eu realmente amei de verdade, tento sempre lembrar-me dela, mas com o passar do tempo sinto que algo está apagando isso de dentro de mim — duas lagrimas rolaram.
  O tempo apaga o que é bonito aos poucos, e o feio se modifica, essa é a metamorfose da mente…
  Senti muitas coisas; era como aqueles tempos ruins que se luta para se esquecer o passado, mas vem justo alguém ou algo que te prende a ele de uma maneira incrédula, da qual não a escapatória, não há outra forma de encará-la a não ser deixar que ela preencha as lacunas que há anos permaneceram vazias, ocas, com teias de arranjas e baratas por todos os lados, grilos cantando a canção do nada, apenas nada, e nada mais, deixar preencher, em busca de respostas. Para somente assim terem um fim, fenecerem por fim. Permaneci de cabeça baixa.
  O dia já tinha amanhecido, e o sol, ou aquilo que naquele instante nominei como ‘’o sol’’, já tinha nascido, mas o tempo ainda tinha aquele tom e jeito de pintura em aquarela na qual as cores leves se misturam formando imensas no horizonte e no céu, azul, rosa, amarelo, verde, vermelho. Clima de poesia, desenho de canetinha em papel molhado na chuva, respingado de álcool, verso ou romance, dia perfeito para se escrever um texto! Viver a vida mais intensamente do que em qualquer outro dia do ano, da estação, da vida na terra, e disso que chamamos de existir, ou o que parece ser.
  Depois de meditar com os meus tortos e velhos botões, acordei desse meu ‘’pequeno mine transe pela vida poética & ilusória’’, e ofereci café a ele, mas me disse que já tinha tomado em antes de sair de casa, achei até assustadora toda aquela alegria abismal, era bizarro aquele sorriso que não morria e nem se apagava — lanterna ligada na tomada: só apaga quando não houver mais energia! —, ele estava tão feliz por ir trabalhar como jardineiro, mais tarde eu descobri que não importa a conquista e nem o tamanho dela, mas sim a satisfação, a chance de ter conseguido viver outro começo para dar uma meia volta aos muros que lhe impedem de chegar, virar o jogo e mostrar que o sonho é real e possível.
  Lindo isso tudo? Espero que também achem o mesmo!
  Mostrei onde estavam às ferramentas, levei-o ao jardim e disse para dar uma olhada, que eu voltaria depois.
  Da sacada de um dos cômodos do segundo andar eu o apreciava sentando em minha tão velha cadeirinha de balanço, que herdei de meu bisavô, a leve luz do sol batia de um lado do meu rosto, era laranja, amarela, dourada, amarela, era sol, era luz, e vida, muita vida! E nada mais.  
  Neto estava agachado olhando as pedrinhas que contornavam as covas e os canteiros do jardim, lembrei-me dos meus amigos, Gustavo e Yaná, que me ajudaram a colocá-las, foi em uma tarde ensolarada que Artur veio me visitar e apareceu na porta de casa com a caminhonete cheia de pedras redondas, que ele mesmo as escolheu, uma a uma, a dedo, sem falhas, somente as redondas e branquinhas!
  Todas as plantas do jardim eram como uma parte de mim: trouxe plantas de todos os lugares que eu fui e que achei algo que me agradasse, era o meu álbum de figurinhas vivas, pelas quais eu tinha o maior estimo!
  Depois de olhar bastante, resolvi descer para fazer companhia ao meu ilustre jardineiro.
  A verdade é que Neto era somente o sobre nome dele, o seu verdadeiro nome jamais tinha sido usado por mim, não que me lembrasse disso, pois dês de sempre eu o chamei assim: Neto! E nada mais. Pois era a maneira que ele mais gostava, e eu também a preferia, o seu nome era uma homenagem ao seu avô materno,  que tinha o mesmo nome que ele: Enrico Neto Siqueira.
  Sempre gostei da sonoridade do nome dele, sempre gostei de nomes diferentes.
  No jardim nos divertimos muito!
  Como dois moleques. Dois moleques que não sem preocupam com nada nessa vida.
  Fizemos até guerrinha com terra seca, e lama, húmus de minhoca, tomamos chá com biscoitos em baixo do pé de manga, morar em uma fazenda me dava essa vantagem: estar sempre no meio do mato e respirar ar puro todos os dias da minha vida! E sem falar na paisagem que é indescritível, a noite se vê varias estrelas no céu, coisa que em cidade grande não acontece, e quando acontece, não são estrelas e sim luzinhas de avião, o por to sol e o seu nascer, é único, coisa que somente existe no campo, os pássaros até parecem cantar mais do que nas cidades, tudo é bem mais lindo, mais bonito e poético, mais vivo.
  Quem não gosta do campo e da natureza realmente não sabe o que está perdendo!
  E o tempo foi passando, pois na verdade tudo passa o bom, e o ruim também, tudo é carregado pelo trem dos momentos,  tudo vai, pouco fica, e se fica, o sol foi se escondendo atrás da colina, o céu foi mudando de coloração, de azul para um misto aquarela, meio difícil de se explicar assim. É preciso ver para saber.
  O dia já estava terminando, e eu por minha vez, não queria que acabasse, é tão triste o fenecer, eu estava me sentindo tão bem, queria tanto imortalizar tudo aquilo para não ter que ver passar e acabar queria que não tivesse fim, quem sabe assim eu nunca deixaria de ser feliz.
  Neto foi embora para a sua casa, e eu entrei na minha, naquela noite eu comecei a escrever, algo que eu realmente não sei dizer o que era apenas era, sem ter explicação, mas tudo aquilo tinha bem mais que só outro lado de mim, não teria e nem faria sentido assinar como Tiago, pois desta vez não se parecia com nada meu.


QUATRO
  Foi naquela mesma noite, senti que aquele ano seria um ano de mudanças, de coisas boas, promessas, vontade e sorrisos, muitos sorrisos, ano de se fazer várias e várias promessas, escrever alguns desejos em papeizinhos e dobrá-los bem dobradinhos, e guardá-los em uma caixinha no fundo de uma gaveta bagunçada cheia de trecos, coisas velhas lá no fundo do guarda roupas, pregar uma lista de desejos na porta de geladeira ou do armário da cozinha com imãs de bichinhos feitos de macinha e EVA. Por isso mesmo fiz uma lista de desejos, coisas impossíveis, algo me dizia que aquela mesma magia que eu já tinha abandonado em tempos atrás, voltaria a me visitar para me dizer que eu ainda posso sonhar que ainda não acabaram que eu ainda posso ter esperanças, que ainda há esperadas para reviver, vontades de acreditar que coisas boas ainda vão chegar e que outras porções de outras coisas ainda vão voltar. Uma confusão de sentimentos, desejos, segredos e quereres.
  Fiquei acordado quase a noite inteira.
  Ouvi algumas musicas dos meus discos favoritos, mas me senti seco demais, sem ânimo, fazer ou não, não me trazia diferenças ou vantagens, parecia feliz, triste ao mesmo tempo, mente alegre, o corpo, parecia surrado, sem sentido, e ao mesmo tempo com todo. Tomei chá para aquecer a minha garganta, enrolei-me em um cobertor e fiquei sentando com os pés cruzados sobre o sofá da sala. Olhei muitas vezes para o vazio querendo vasculhar e encontrar algo nele eu pensei como foi o meu dia até ali e tentei recordá-lo, fio a fio, cena por cena, frase por frase, pedaço por pedaço, momento e momento, sem me esquecer de nada, sem fugir do ruim e nem excluí-lo de mim, sem tentar tira-lo de perto do bom, lembrei de tudo como se fosse apenas lembranças — e eram —, sem tentar colocar rótulos de qualidade ou indicação, e não tinha nada disso mesmo. (Ainda bem!)
  Minuciosamente pensei em coisas boas sem me esquecer dos mínimos e micro detalhes, mergulhei nas horas passadas, lembrando de tudo flesh após flesh.
  Comecei a imaginar mais coisas, imaginei um lindo vale florido, onde passava um trem, havia um riacho raso cheio de pedras, muitos cristais, ao fundo, montanhas com neve, e o céu azulzinho com muitas nuvens ralas, quase desaparecidas, quase invisíveis, um sol forte e amarelo brilhante com lindos raios, faixas de luz viva, e assim, de repente, eu comecei a correr pelo vale, eu corria sem saber por que ou para onde, apenas corria, e alguém de longe, meio longe, vinha ao me encontro, este, corria também. Corri para alcançar, quando cheguei bem perto, olhei, mas não vi seu rosto, e esse alguém me abraçou como quem abraça outra pessoa na rodoviária após terem passado um longo tempo sem se ver, esse tipo de abraço é abraço de saudade, de afeto e carinho. Com das suas mãos acariciou o meu rosto, e levemente levou os seus lábios aos meus roubando-me um beijo, me beijou com tanta calma, que despertou todo ou qualquer tipo de sentimento revivendo todas as possíveis e impossíveis sensações que podem ser sentidas por alguém. Depois pode ver seus olhos brilhantes e negros, seus cabelos cacheados e dourados como os de um anjo — mas nem sei ao certo se anjos são assim, mas suponho que sejam —, seus lábios eram macios assim como a sua pele, mas havia uma mancha negra que me impedia de reconhecer aquele rosto que me provocava uma forte atração de afeto e familiaridade, uma sobra bloqueava a minha visam, e os dois olhos negros penetraram em mim como se estivessem comento a minha alma.
  Tudo foi ficando claro, cada vez mais limpo, porem, quando avistei o lindo sorriso daquela boca cujos lábios eram rosados, adormeci. Deixei a caneca de chá cair e rolar no chão, molhando o tapete, dormi sem saber quem era aquela pessoa do meu pensamento, não sei se era um sonho, nem sei se era só um pensamento, se era real ou não, só sei que estava lá, de que de alguma forma vivi e senti tudo aquilo, sei que muitos diriam que depois de um dia cheio a gente começa ver coisa aonde não tem.
  Mas seria mesmo um anjo? Não sei, mas creio eu que anjos não beijam demônios…